pego com a mão
peco
venho aqui
peço
nunca antes na história desse país
pelo menos até ontem
no que se refere à pessoa
nossa de cada dia
alguém

um lugar me perguntou:

– quando você vem?

(L)

é assim como saber quando chega
e entra e toma conta
assim é saber a hora que acaba
aquilo sobre deixar ir
eu que não sei deixar
vou

***

por favor, parem!

me deixem como se nunca antes tivesse existido
nem eu, nem outro eu
esqueçam todas as palavras ditas
benditas, malditas
me deixem ser nada, maldito
antes que o nada me corrompa
antes que a febre feneça
antes que o delírio finde
e então percebas
que nada já fui desde antes
nunca estive, nunca estarei
sempre aqui nesta infinita
ausência

 

.M. .D.

I

meu único desejo desde então
tem sido esculpir palavras duras

doces melancolias
preocupações enganosas
nem mesmo quero, como antes
que me queiram tanto bem

todo o deszelo
o tratamento mais grosseiro
e o azedume encobrindo cada palavra
tudo isso me engrandece

no fim nunca sei o que fazer com todo o amontoado de sujeirinhas que vou
……………………………………………………………………………concentrando
sempre guardo tudo, como se um dia fosse precisar
no futuro pode se tornar munição pra ser atirada sobre os mais desavisados
……………………………………………… que tentarem atravessar meu caminho em
………………………………………………………………………….um dia ruim.
pensem em macacos que atiram excrementos  como forma de defesa (ou diversão?)
poderia juntar pensamentos deselegantes para lambuzar estruturas morais sempre que
…………………………………………………………………………. necessário:

é só levar ao forno por dez minutos em fogo alto

II

desconstruir esperanças e construir um móbile
as peças que sobrarem descartar
direto na lata dos não-recicláveis

………………………………………………………………………………………

como seria se uma fera gigantesca
se precipitasse sobre mim
e levasse consigo toda a sujeira
a fragilidade e o medo

alimentada, pois, das indecências de minh’alma, partiria
em busca de um outro quem
jamais tão crasso e imundo quanto eu

lamentaria um dia, a fera
nunca mais ter encontrado
outra tão perfeita vítima
de espírito tão puramente vil
lamentarei eu, ter perdido tudo
de que era mais unicamente meu

e seguirei completamente vazio
dentro de mim um pequeno espaço
assombroso, tênue e exangue
donde antes se podia ver perfeitamente
os olhos de uma gigantesca fera

coletânea

nasci
fui criança quando era pra ser
chorei quando fui triste
sorri de felicidade,
por ser bobo ou sem vontade

cresci
fui responsável quando não quis
fui infantil
quando devia ser sério
fui adulto quando podia brincar

agora sou homem
vinte e poucos anos já se passaram
perdi amigos, ganhei angústias
eliminei e recuperei quilos indesejáveis
tenho tempo, mas não sei o que fazer

o futuro me apavora
o passado me desola
o presente me consola
e agora, vida minha?

resumida a poucos fatos
poucos atos relvantes
não agradou nem a crítica
foi deixada de lado
atingiu pequeno público

nesses três volumes
que pouco vivi
tudo reunido
nessa obra completa
creio que não renda
nem um livreto de bolso

e tudo o que eu queria
era ser miss universo

[17/10/2008]